"Há-des cá vir..."
Quem é que não ouviu já esta expressão? Poucos, certamente...
As formas "há-des" e "há-dem" são flexões erradas, como muitos sabem, do verbo haver (de), no Presente do Indicativo, usadas em vez de hás-de e hão-de. A maioria dos portugueses bem falantes, sobretudo professores, sente arrepios cada vez que ouve essas pseudo-flexões.
Mas o que é curioso é que muitas das pessoas que cometem este erro SABEM que se trata de uma incorrecção, mas usam-no, ainda assim, "porque dá mais jeito."
E a verdade é que grande parte das alterações que ocorrem nas línguas, ao longo do tempo, acontece precisamente porque aos falantes "dá mais jeito" dizer as palavras de determinada forma em vez de outra, trocando consoantes (de semper para sempre), acrescentando (de mostrar para amostrar) ou suprimindo sons (de mare para mar), etc. Quem não se lembra de ter decorado, na escola, os "fenómenos" fonéticos", com aqueles nomes difíceis como apócope, epêntese ou paragoge?
A nossa tendência, em cada momento histórico, será naturalmente a de condenar as alterações que se vão insinuando como resultado da ignorância, do "desrespeito" pela língua. Mas até mesmo os puristas acabam por ser apanhados a usar um termo que, tempos atrás, fora condenado por outros como eles.