16 abril 2007

"Há-des cá vir..."

Quem é que não ouviu já esta expressão? Poucos, certamente...

As formas "há-des" e "há-dem" são flexões erradas, como muitos sabem, do verbo haver (de), no Presente do Indicativo, usadas em vez de hás-de e hão-de. A maioria dos portugueses bem falantes, sobretudo professores, sente arrepios cada vez que ouve essas pseudo-flexões.

Mas o que é curioso é que muitas das pessoas que cometem este erro SABEM que se trata de uma incorrecção, mas usam-no, ainda assim, "porque dá mais jeito."
E a verdade é que grande parte das alterações que ocorrem nas línguas, ao longo do tempo, acontece precisamente porque aos falantes "dá mais jeito" dizer as palavras de determinada forma em vez de outra, trocando consoantes (de semper para sempre), acrescentando (de mostrar para amostrar) ou suprimindo sons (de mare para mar), etc. Quem não se lembra de ter decorado, na escola, os "fenómenos" fonéticos", com aqueles nomes difíceis como apócope, epêntese ou paragoge?

A nossa tendência, em cada momento histórico, será naturalmente a de condenar as alterações que se vão insinuando como resultado da ignorância, do "desrespeito" pela língua. Mas até mesmo os puristas acabam por ser apanhados a usar um termo que, tempos atrás, fora condenado por outros como eles.

13 abril 2007

Trava-destrava-línguas

Em conversa com outra professora, surgiu a dúvida: é "trava-línguas" ou "destrava-línguas" que se deve dizer?
Confesso que não tinha uma resposta definitiva, embora me parecesse que "trava-línguas" era o termo mais comum. Tive, ainda, o pressentimento de que "destrava" pudesse ser mais um daqueles fenómenos sobre os quais escrevi há pouco, a propósito de "desinquieto", ou seja, o aparecimento de um "des" enfático, mas perfeitamente dispensável e até ilógico.
Mas a minha colega explicou-me que, na verdade, a intenção pedagógica subjacente ao uso dessas construções (como "há três pratos com trigo para três tigres"), no contexto da educação pré-escolar, é precisamente "destravar" a língua das crianças, porque se pretende ajudá-las a articular os sons em causa com maior destreza.
O passo seguinte, uma vez que continuámos sem ter a certeza sobre a validade do termo "destrava-línguas", foi consultar o Ciberdúvidas. Desta vez, porém, aquela excelente ferramenta não me ajudou: porque explicava que trava-línguas era mais correcto do que "quebra-línguas", mas não mencionava, de todo, "destrava-línguas".
Resolvi, então, consultar a Mordebe. Nessa base de dados, o termo "destrava-línguas" não existe. Será mesmo, como eu pensava, uma invenção do povo? É bem provável. Mas nada a impede de vir a ser dicionarizada. Afinal, se "desinquieto" já é uma palavra portuguesa, por que razão esta outra não há-de ser?!...

12 abril 2007

“Uma metáfora é quando...”

Qual é o professor que nunca se queixou de que os seus alunos iniciam a explicação de um conceito com aquele nefasto "é quando..." ? Julgo que todos se lamentam do mesmo...

No entanto, há outra pergunta a fazer: quais, desses professores, é que se deram ao trabalho de esclarecer os alunos, de lhes fornecer instrumentos e técnicas para que eles saibam produzir uma explicação aceitável, construir uma definição minimamente rigorosa de uma ideia? Se calhar, muito poucos...
Talvez devêssemos, então, começar por alertar os alunos para o facto de "é quando" não ser uma forma aceitável de começar a definição de um conceito, explicando porquê – ANTES de lhes pedir que definam este ou aquele termo.
Depois, seria bom que os orientássemos, mostrando-lhes que definir um conceito implica, antes de mais, encontrar um outro termo que possa substituir o primeiro e que tem forçosamente de pertencer à mesma classe gramatical. Peguemos numa metáfora, por exemplo, que antes de ser qualquer outra coisa é um substantivo. Podemos então começar por dizer que se trata de um “recurso estilístico” e só a partir daí devemos construir o resto (“um recurso estilístico através do qual determinada realidade é referida ou caracterizada de forma simbólica, etc....”).

Acredito, sinceramente, que os alunos que começam por explicar seja o que for com a expressão “é quando” não o fazem por entenderem que se trata de uma boa maneira de introduzir a explicação, mas por não saberem como iniciar a frase de um modo mais rigoroso e eficaz.

11 abril 2007

Afinal, o que é ser "desinquieto"?

Curioso, como escolhemos suprimir uns prefixos - como em (com)portar-se - e acrescentar outros a certas palavras que deles não precisam.

É com relativa frequência que ouvimos alguém dizer que determinada criança é "desinquieta", quando, na realidade, inquieta seria o termo adequado. Para quê o des-?
Para dar mais ênfase à ideia de que se trata do oposto de quieto? Talvez. Mas acontece que o segundo prefixo, logicamente, anula o significado do primeiro (in-), que já exprimia a ideia de contrariedade. Então as pessoas que escolhem a versão aparentemente "reforçada" do adjectivo, "desinquieto", estão afinal a dizer o contrário daquilo que pretendem, pois desinquieto seria, no fim de contas, o mesmo que quieto!

Todavia, resta dizer que esta aparente redundância, que afinal é um contra-senso, tem sido tão usada (pelo menos num registo de língua familiar/popular), que a palavra "desinquieto" até já foi consagrada pelos dicionaristas, que descrevem o seu significado como "o mesmo que inquieto".
Não é que o povo é mesmo quem mais ordena?!

10 abril 2007

(com)portar-se

Quando dizemos às crianças (ou a adultos) que se "portem bem", estamos na verdade a dizer que se devem comportar convenientemente.

Sempre me intrigou esta espécie de truncamento ao contrário, que é o que me parece que aconteceu, quando se passou de comportar-se a portar-se. Afinal, qual é a lógica de pensar que "portar-se", em termos de comportamento, vem de portáre, que em latim significava levar ou transportar? As pessoas que se "portam" assim ou assado não se transportam nem se fazem transportar...
Para mim, faria mais sentido concluir que simplesmente se abreviou o verbo comportáre, que também vem do latim e queria dizer reunir, acumular. Ainda hoje, comportar é mais ou menos o mesmo que "conter, apresentar em si", logo, enquanto verbo reflexo, significa manifestar determinadas atitudes, agir. Até porque, em boa verdade, dizemos coisas como "portou-se mal" num discurso informal, mas tendemos a repor o prefixo quando queremos falar de forma mais cuidada ("comportou-se mal").
Isto é mera especulação, dado que não consegui chegar a uma conclusão rigorosa e definitiva através das fontes que consultei (O Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa de José Pedro Machado, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências e a Infopédia da Porto Editora). Mas é da especulação que nasce o diálogo e, neste momento, estamos aqui com falta de diálogo!

09 abril 2007

Pudermos ou podermos?

Muito boa gente confunde as flexões poder(es/mos/em) e puder(es/mos/em) do verbo poder.

A primeira pertence ao Infinitivo Pessoal e usa-se sobretudo com preposições como para ou de, por exemplo em frases do tipo: "Para poderem escrever bem, devem ler muito!" ou "O facto de podermos sair mais cedo não obriga a que o façamos."
A segunda corresponde ao Futuro do Conjuntivo e usa-se com as conjunções se e quando, em orações subordinadas condicionais ou temporais, como nestas frases: "Se puderem, leiam este livro durante as férias", ou "Quando pudermos, iremos ter contigo."

Para as distinguir, convém notar que a diferença não é apenas visível (levando à tal hesitação entre escrever a forma verbal com o ou com u), é também audível: nas flexões que se grafam com u (as do Futuro do Conjuntivo), o som do e é sempre aberto ("é"). Se o som do e, pelo contrário, for semi-fechado ("ê"), é garantido que a forma em causa se escreve com o.
Simples, não?

05 abril 2007

Ele não interveio, mas seria bom que tivesse intervindo!

É com bastante frequência que se ouvem as expressões “ele interviu” ou “tinha intervido”, em vez das respectivas formas correctas “ele interveio” e “tinha intervindo”.
Poderia mencionar aqui outras formas verbais, mas são estas que mais frequentemente nos ferem a sensibilidade.
O verbo intervir deriva do latim intervenire e é composto por dois elementos: o verbo vir, que ocupa a segunda posição na palavra, e o elemento inter, que corresponde ao nosso “entre”, tendo como significado original “vir ou colocar-se entre”.
Dita a regra gramatical que os verbos compostos seguem o paradigma de conjugação do seu verbo base. Neste caso, a 3ª pessoa do singular do Pretérito Perfeito do Indicativo do verbo vir é veio e não *viu e o Particípio Passado é vindo e não *vido (por exemplo: *Ele não tem vido às aulas).
Por conseguinte, as formas correctas do verbo intervir são: interveio e intervindo.

E agora que já intervim a propósito da flexão complexa deste tipo de verbos, gostava que interviessem, apresentando os vossos comentários e sugestões!

04 abril 2007

Quem sabe...

onde colocar duas vírgulas e um ponto para que esta frase passe a estar correcta?

Maria toma banho porque sua mãe disse ela dê-me a toalha.

03 abril 2007

Jogo de construções


A língua é como um daqueles jogos para fazer construções: podemos passar horas a montá-la e a desmontá-la, brincando com as peças todas ou apenas com algumas, combinando-as, desmontando-as e recombinando-as (o corrector do Word acaba de me sublinhar este termo. Qual é o problema?! Já confirmei que existe na Infopédia...!).

Mesmo que a nossa criatividade não seja por aí além, todos inventamos novas palavras à medida que vamos comunicando, quer nos apercebamos disso, quer não. A tal ponto, que, se nos detivermos sobre alguns termos que utilizamos, talvez não saibamos dizer se existem, de facto, na nossa língua. E o facto de estarem ou não consagrados nos dicionários é secundário, desde que todos usemos a mesma “matéria-prima”. Essa é a única condição para que nos entendamos.

Podemos, por exemplo, formar novos advérbios terminados em -mente, como “parvamente”, “digitalmente” ou “arrumadamente”, e qualquer pessoa entenderá o seu significado. Podemos criar novos substantivos com os sufixos -ada ou -ismo (entre tantos outros), como “clicada” ou “chico-espertismo”, que toda a gente perceberá o que queremos dizer. Podemos inventar novos adjectivos com prefixos como a- e des-, como “associal” ou “desfundo”, e ninguém terá dúvidas sobre o seu sentido. Podemos, ainda, formar verbos com -izar ou -ar, como “oscarizar” (que o Jaime já constatou ter sido usado pelo menos numa notícia de jornal!) ou “e-mailar”... enfim! Os únicos limites são a quantidade de “peças” do jogo e a nossa imaginação. Porque, teoricamente, o número de criações possíveis é infinito!

02 abril 2007

“A impressora está meio lenta” ou “meia lenta”?

Quando significa o mesmo que “um pouco”, ou “parcialmente”, a palavra meio é um advérbio e, como tal, não deve ser flexionada em género nem em número, ou seja, meio é palavra invariável, nesses contextos. Assim o afirmam todos os especialistas que dão conselhos a quem tem dúvidas nestas matérias.

O que não explicam (pelo menos ainda não encontrei nenhuma explicação) é por que razão se pode flexionar um outro advérbio muito parecido, que é todo, quando significa “completamente”. Esse é um dos meus problemas existenciais: o facto de não se poder dizer que “a impressora está meia lenta”, quando já é legítimo dizer, por exemplo, que “a impressora está toda suja de pó”...

30 março 2007

Próxima prova qualificativa do Torneio ISEC de Língua Portuguesa

Os professores dos concorrentes do 4º ano do Ensino Básico já receberam a segunda prova qualificativa, que permitirá apurar os finalistas do Torneio ISEC de Língua Portuguesa.

Quanto aos alunos do ISEC, ainda têm bastante tempo para se prepararem para a próxima prova, que se realizará no dia 16 de Abril, pelas 13 horas. Entretanto... boas férias da Páscoa!

29 março 2007

Como e quando delinear fronteiras entre línguas?

Entre o português de Portugal e o do Brasil, como se sabe, há muitas divergências.

Há óbvias diferenças de pronúncia (que por vezes quase causam, por si só, a incompreensão); muitas de léxico (são tantas as palavras e expressões distintas, que implicam a respectiva “tradução”, como canudinho, locação, carona!.. E também é significativo o número daquelas que cá e lá têm significados diferentes, por exemplo camisola, linguiça, salpicão); algumas de sintaxe (vou na praia); e, até, certas formas verbais e flexões em género e número (“ter pego”, “foi aceito”). Para não falar dos inúmeros termos que se escrevem de forma distinta, como idéia/ideia, fato/facto ou cotidiano/quotidiano.

É motivo para nos perguntarmos como, no meio de tantas divergências, nos conseguimos entender!

E é também um bom pretexto para reflectirmos sobre isto: qual é, ou quais são, afinal, os critérios que permitem diferenciar duas línguas? Por outras palavras, a partir de que momento é que podemos dizer que dois códigos linguísticos, ou duas variações de um código comum, são, de facto, dois idiomas distintos – e não simplesmente variantes ou dialectos?

28 março 2007

Açoriano?? Mas Açores escreve-se com e...

Já tive algumas discussões amigáveis a propósito da palavra açoriano! E as pessoas teimam no erro, alegando “Mas Açores escreve-se com e...”.
Ora, apesar de o nome Açores ser grafado com a vogal e, açoriano escreve-se com i, uma vez que esta é uma palavra derivada por intermédio de um sufixo que começa com a vogal i: -iano (trata-se de um sufixo que exprime, entre outros, o significado de origem, naturalidade, tal como em canadiano).
Ao juntarmos qualquer sufixo a uma palavra que termine em vogal, verificamos que essa vogal desaparece, por exemplo: França + ês = francês (e não *françaês); sapato + aria = sapataria (e não *sapatoaria). Se, por outro lado, a palavra terminar em -s, desaparece não só esta consoante, mas também a vogal que a precede, por exemplo: flores + inhas = florinhas (e não *floresinhas).
E é o que acontece com açoriano. À palavra Açores juntámos o sufixo -iano e o «es» caiu automaticamente. O polémico i pertence, portanto, ao sufixo.


Curioso, que com a palavra cabo-verdiano ninguém hesita, porque senão seria a minha vez de porfiar: «Mas Cabo Verde escreve-se com e ...»

27 março 2007

Um "a" que faz a diferença...

A quem confunde os termos despercebido e desapercebido, deixamos aqui uma definição bem simples de cada um:

despercebido significa que não é percebido, ou notado (por outrem);
desapercebido significa que não percebe, não repara (em alguma coisa).

Assim, o primeiro termo é adequado em expressões como "passar despercebido"; o segundo é o indicado quando falamos de alguém que se "fez de desapercebido" (ou seja, de desentendido).

E boa sorte, para quem vai fazer teste de TEC logo à tarde :)

26 março 2007

Afinal, porque é que raiz não leva acento agudo e raízes leva?!

Quando a vogal tónica i ou u não forma ditongo com outra vogal imediatamente anterior, é de regra colocar-lhe o acento agudo, precisamente para evidenciar que há um hiato, ou seja, que as duas vogais pertencem a sílabas diferentes. É o que acontece com as palavras Luís, miúdo, saúde, país, juízo, etc. – regra que se aplica também às palavra raízes.

No entanto, existem alguns casos em que a vogal não leva acento agudo, ainda que não haja ditongo com a anterior: sempre que, depois do i ou do u tónico estejam as consoantes l, m, n, r, z – desde que estas não iniciem nova sílaba – ou o dígrafo nh.

Assim se explica que paul, amendoim, saindo, cair, raiz e bainha não se escrevam com acento gráfico, ao passo que abaúlo, contribuímos saída, caíste, raízes levam o acento agudo.

Reparem que esta regra de acentuação, como quase todas as outras, tem lógica: no caso da primeira série de palavras, seria difícil pronunciá-las de forma diferente, com a tónica noutra vogal. Por isso, o acento gráfico é desnecessário. Já as segundas, sem o acento, induziriam os falantes em erro, porque facilmente seriam levados a pronunciar na mesma sílaba aquelas duas vogais juntas: “a-bau-lo”, “con-tri-bui-mos”, “sai-da” e por aí fora, quando, na verdade, se trata de a-ba-ú-lo, con-tri-bu-í-mos e sa-í-da.

22 março 2007

Quem consegue...

formar 9 palavras APENAS COM AS LETRAS OAPRT ?

21 março 2007

Há histórias e estórias...

História e estória são, em rigor, duas possibilidades gráficas da mesma palavra.

Contudo, foi só há relativamente pouco tempo que a grafia “estória” começou a ganhar visibilidade, o que no meu entender se deve, em larga medida, a uma moda – porque a língua também é afectada pela moda, e não é pouco. Basta pensarmos nos nomes próprios que se põem aos bebés em determinadas épocas, conforme personagens de livros (antigamente) e de telenovelas, ou vedetas da vida real (hoje).

Assim, nota-se que muita gente, inclusive autores de literatura portuguesa e juvenil, usa preferencialmente o termo "estória" quando o significado é "narrativa ficcional, fantasiosa", optando por reservar o segundo para os contextos em que signifique "relato ou sucessão de eventos factuais".

Todavia, nada nos impede de usar apenas a grafia história para ambos os sentidos, já que ela também contempla o significado que hoje se atribui a estória. O que não é aconselhável é usar o termo estória quando nos referimos à disciplina científica que descreve factos reais (a tal História com maiúscula), ou a uma qualquer narrativa que seja baseada em acontecimentos que tiveram, de facto, lugar.

Porque, ao que parece, afinal, uma coisa são as histórias, outra as estórias...

20 março 2007

“SMSs” ou “SMS’s”?

(Este texto foi escrito por sugestão do Jaime!)

Quem é que não teve já uma dúvida deste tipo, fosse com a sigla SMS, fosse com outra qualquer, como CD ou DVD...?

Se o plural de palavras estrangeiras leva algumas pessoas a franzir o sobrolho e a hesitar na escrita (e há quem não hesite e escreva barbaridades como “atelieres”, “collant’s” ou “design's”), o plural das siglas pode revelar-se ainda mais problemático para mais gente.

De facto, onde e como devemos colocar o s ?

A resposta mais lógica e rigorosa é... em lado nenhum! Na verdade, não se justifica adicionar a uma sigla uma letra a mais (que não é inicial de nenhuma palavra e, portanto, não faz parte dela). Devemos dizer e escrever vários CD e não “vários CDs”, muito menos vários CD’s”. Porque, bem vistas as coisas, mesmo que o nome representado esteja no plural (por exemplo, bilhetes de identidade ou "ateliers" de tempos livres), as iniciais que compõem a sigla permanecem as mesmas, ou seja, temos os BI e os ATL. Portanto, sempre SMS – seja plural ou singular.

Este é um dos casos em que as gramáticas simplificam, mas os falantes complicam!

19 março 2007

Prefere um cafezinho ou um chazinho bem quentinho?


Muitos erros de ortografia resultam da falta de acentos, mas também do seu excesso.

É o que acontece em palavras como cafezinho, chazinho e sozinho, as quais muita gente insiste em grafar com acento: *cafézinho, *sózinho, *cházinho.

Ao associar o sufixo -zinho às palavras café, chá e , o acento tónico (mais forte) passou a recair na sílaba zi, razão pela qual não faz sentido manter o acento gráfico que existia nas palavras primitivas (se pronunciarmos essas palavras pausadamente, verificamos que a sílaba forte é, sem dúvida, a sílaba zi).

Esta regra é válida para qualquer palavra derivada por sufixação, cuja palavra primitiva contenha um acento gráfico. Veja-se, por exemplo, os advérbios terminados em -mente: as palavras obviamente e psicologicamente não precisam de acento agudo, pela mesma razão: ao associar o sufixo -mente às bases óbvio e psicológico, o acento tónico avançou para a sílaba men, exigindo a supressão do acento gráfico que existia nessas palavras.

A propósito, prefiro um chazinho bem quentinho a um café!

Não convém esquecer também que o verbo preferir rege a preposição a: “preferir uma coisa a outra” e não “do que outra”.

16 março 2007

Palavras com dupla grafia

Não são muitas, mas há algumas palavras em português que admitem duas grafias, de acordo com os dicionários actuais. Nalguns casos, e para responder ao Luís Martins, podemos dizer que uma delas é “mais correcta” do que a outra, ou pelo menos preferível, por ser a mais antiga. Até porque, em muitos desses casos (embora não em todos), a duplicação da grafia está associada à generalização do erro.

Aqui fica uma lista abreviada, admitindo que são estas as que mais usamos no dia-a-dia. Nos pares em que isso se aplica, sublinhámos aquelas que se podem considerar como mais legítimas, apesar de ambas estarem contempladas nos dicionários:

bêbedo / bêbado

baloiçar / balouçar (e muitos outros pares em que se alternam ou/oi)

carrossel / carrocel

cobarde / covarde

controlo / controle

desfrutar / disfrutar

espécimen / espécime

fêvera / fevra / febra

fôlego / folgo

impacte / impacto

maquete / maqueta

omelete / omeleta

organograma / organigrama

perda / perca

piaçaba / piaçá

potro / poldro

reclame / reclamo

repertório / reportório

rescrever / reescrever

restruturar / reestruturar

rotura / ruptura

síndrome / síndroma

taberna / taverna

toxicidade / toxidade

urtiga / ortiga

14 março 2007

“Oh” ou “ó”?

Esta sugestão foi dada pelo Jaime. Obrigada, Jaime ;)


Muita gente hesita, na escrita, entre “oh” e “ó”, quando quer registar a interjeição que acompanha frases exclamativas, como “Oh, não!” ou “Ó Maria!”

A diferença entre “oh” e “ó” é simples: a primeira exprime espanto, admiração. A segunda usa-se no discurso directo e exprime chamamento, quando pretendemos interpelar alguém directamente. Assim, mesmo numa frase como “Oh, meu Deus!”, devemos usar a primeira, pois não estamos propriamente a falar com Deus.



13 março 2007

Obrigado ou obrigada?

Uma leitora do nosso blogue enviou-nos um e-mail em que se queixava de ser corrigida quando dizia "obrigada" por pessoas que alegavam ser obrigado a única forma de agradecimento válida para ambos os sexos. A nossa opinião sobre isto é a seguinte:


A palavra obrigada/o é uma forma participial do verbo obrigar e, como tal, admite a flexão no feminino, tal como acontece com "agradecida/o", do verbo agradecer. Assim, uma mulher pode legitimamente dizer que está, ou que se sente, "muito obrigada" por um favor que alguém lhe fez.
Contudo, tratando-se de uma interjeição, também é natural que muita gente resista à ideia de flexioná-la no feminino, uma vez que as interjeições são invariáveis. Sob esse ponto de vista, tanto um homem como uma mulher podem dizer simplesmente "obrigado", com a mesma naturalidade com que dizem "olá", "adeus", ou "viva".
Há, portanto, lugar para uma certa ambiguidade na interpretação do termo, conforme este seja encarado como particípio verbal ou como interjeição.
O problema é que a consulta de um dicionário nem sempre nos ajuda a decidir o que fazer (neste caso, dizer "obrigada" ou não). O Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências, por exemplo, apresenta "obrigado" (no masculino) como interjeição (acepção n.º 3) e, ao mesmo tempo, apresenta o respectivo exemplo no feminino ("Obrigada, disse a senhora"), contrariando o princípio de que as interjeições são invariáveis.

Resumindo, a flexão é legítima, por razões etimológicas, mas talvez venha a perder-se, em virtude da classe a que a palavra está agora afecta, quando é usada como expressão de agradecimento.

12 março 2007

Novidades do Torneio

Já foram apurados os 13 concorrentes que passarão à fase seguinte do Torneio, a segunda prova qualificativa! Enviem-nos um e-mail para linguaportuguesaisec@gmail.com, se quiserem saber se o vosso nome consta da lista.

A todos os que concorreram, obrigada pela vossa participação! Aos que foram seleccionados, deixamos os nossos parabéns e votos de boa sorte.

Quem adivinha...

o nome de uma localidade em Portugal que se escreve com 5 VOGAIS SEGUIDAS?!

09 março 2007

Palavras mágicas

É engraçado reparar como há palavras que parecem ter um poder imenso sobre as pessoas – concretamente, sobre os consumidores.

Já repararam na quantidade de embalagens de alimentos cujo texto contém as palavras “SELECCIONADO”, “EXTRA” ou “LIGHT”?

É curioso como esses termos, que na realidade não indicam absolutamente nada que seja de facto importante ou verdadeiro sobre a natureza do produto, contribuem para que ele se venda. Umas têm uma carga positiva associada à ideia de superioridade (EXTRA, PLUS...). Outras parecem implicar automaticamente a excelente qualidade do produto (SELECCIONADO, BIOLÓGICO). Outras ainda parecem soar melhor apenas por serem diferentes ou estrangeiras (como LIGHT ou ACTIVE – ou mesmo “ACTIV”).

Contudo, se pensarmos bem, são apenas palavras. Em muitos casos, palavras cujo sentido é vago, sobretudo porque aparecem frequentemente descontextualizadas. Palavras simples, que não foram escolhidas pelo produtor ou fabricante para qualificar honestamente o artigo, nem tão-pouco pelo consumidor que o tivesse experimentado e avaliado. São palavras que servem para nos atrair, mas que não fornecem garantias de espécie nenhuma. Palavras que parecem significar tanto e acabam por não significar nada!

07 março 2007

ALTERAÇÃO DA DATA DA 1ª PROVA DO TORNEIO ISEC DE LÍNGUA PORTUGUESA


A pedido de vários concorrentes, a Comissão Organizadora resolveu alterar a data prevista para a
1ª prova do Torneio de Língua Portuguesa para os alunos do ISEC. Em vez de sábado, dia 10, será antes no

DIA 12 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA, ÀS 13 HORAS.

Esperamos, sinceramente, que esta alteração seja do agrado de todos os concorrentes, sobretudo daqueles que consideraram desistir de participar em virtude da data da prova.

BOA SORTE A TODOS! E até segunda-feira...!

1ª PROVA QUALIFICATIVA DO TORNEIO ISEC DE LÍNGUA PORTUGUESA!

Está prevista para o próximo sábado, dia 10, às 11 horas, a primeira das duas provas qualificativas destinadas a seleccionar os alunos do ISEC que se candidataram ao Torneio da Língua Portuguesa.

Queremos, desde já, desejar-lhes boa sorte nesta etapa, felicitá-los pela iniciativa de participarem e também agradecer-lhes – porque, afinal, sem eles não haveria Torneio.

A todos os que ainda não se inscreveram, queremos deixar aqui um convite final: AINDA ESTÃO A TEMPO!!! Aceitamos inscrições até à hora da primeira prova, de modo a dar-vos todas as oportunidades possíveis para se decidirem a participar ;)

06 março 2007

Uma factura discriminada, se faz favor!


Não há quem não tenha já feito um pedido como este, num restaurante, ou noutro qualquer estabelecimento comercial.
O verbo discriminar provém do latim discriminare e tem como significado original “separar, diferenciar”, do qual resultou um segundo significado “tratar de forma desigual, rejeitar”, presente em frases como: “ele foi discriminado pelos colegas por ser de raça diferente».
Por sua vez, o verbo descriminar está relacionado com a palavra crime; significa “livrar de culpa ou crime, absolver”, sinónimo de descriminalizar.
Mas é no primeiro caso – o da factura – que normalmente as pessoas se enganam, “pedindo uma factura descriminada” em vez de “discriminada”, talvez por analogia com o verbo descrever - «factura com tudo descrito ao pormenor», será?
Ou a factura terá cometido algum crime pelo qual pedimos absolvição?!

05 março 2007

O pleonasmo de que toda a gente gosta

Desde que me lembro até hoje, sempre que alguém involuntariamente deixa escapar um “subir para cima”, ouve logo isto: “subir para cima?! E havia de ser para baixo?” Ou seja, sempre que alguém se distrai ao ponto de cair nesse pleonasmo aparentemente ridículo e chocante, há logo quem “lhe salte em cima” com a troça, a crítica, ou (na melhor das hipóteses) a simples chamada de atenção.

No entanto, curiosamente, ouço muita gente bem falante, inclusive professores de Português, a dizer “tenho um amigo meu que...”

Então, se o “têm”, isso não quer já dizer que o amigo é deles?!

A mim sempre me ensinaram que se deve optar entre dizer “tenho um amigo que...” e começar a frase por “um amigo meu”. Mas se quiserem insistir no pleonasmo, não tenho nada contra. Só peço que sejam mais brandos com quem “sobe para cima”... Porque, afinal, todos temos telhados de vidro!

02 março 2007

As perguntas colocam-se ou fazem-se?

“Fazer perguntas” era uma expressão que toda a gente usava e da qual ninguém desgostava, penso eu (que até sou nova de mais para me lembrar desse tempo :)). Faziam-se perguntas complicadas, embaraçosas, difíceis, indiscretas e por aí fora – mas todas as perguntas eram feitas.

Hoje em dia, pelo menos a julgar pelo que se ouve na comunicação social (e pelo que já se lê nalguns dicionários, é certo), as perguntas já não se fazem – já nem se põem... COLOCAM-SE! É muito mais bem sonante, sem dúvida. Basta “colocar-se uma questão” em vez de se “fazer uma pergunta” e o nosso registo sobe logo de corrente para cuidado.

Contudo, será legítimo “colocar perguntas” na nossa língua?

A mim soa-me a galicismo (poser = colocar - des questions). Até porque se usa mais o verbo colocar com o termo questão do que com a palavra pergunta, talvez porque “question” é pergunta em francês. Mas enfim...

Nada como uma moda nova para renovar a língua, de modo a não nos fartarmos dela!