02 abril 2007

“A impressora está meio lenta” ou “meia lenta”?

Quando significa o mesmo que “um pouco”, ou “parcialmente”, a palavra meio é um advérbio e, como tal, não deve ser flexionada em género nem em número, ou seja, meio é palavra invariável, nesses contextos. Assim o afirmam todos os especialistas que dão conselhos a quem tem dúvidas nestas matérias.

O que não explicam (pelo menos ainda não encontrei nenhuma explicação) é por que razão se pode flexionar um outro advérbio muito parecido, que é todo, quando significa “completamente”. Esse é um dos meus problemas existenciais: o facto de não se poder dizer que “a impressora está meia lenta”, quando já é legítimo dizer, por exemplo, que “a impressora está toda suja de pó”...

30 março 2007

Próxima prova qualificativa do Torneio ISEC de Língua Portuguesa

Os professores dos concorrentes do 4º ano do Ensino Básico já receberam a segunda prova qualificativa, que permitirá apurar os finalistas do Torneio ISEC de Língua Portuguesa.

Quanto aos alunos do ISEC, ainda têm bastante tempo para se prepararem para a próxima prova, que se realizará no dia 16 de Abril, pelas 13 horas. Entretanto... boas férias da Páscoa!

29 março 2007

Como e quando delinear fronteiras entre línguas?

Entre o português de Portugal e o do Brasil, como se sabe, há muitas divergências.

Há óbvias diferenças de pronúncia (que por vezes quase causam, por si só, a incompreensão); muitas de léxico (são tantas as palavras e expressões distintas, que implicam a respectiva “tradução”, como canudinho, locação, carona!.. E também é significativo o número daquelas que cá e lá têm significados diferentes, por exemplo camisola, linguiça, salpicão); algumas de sintaxe (vou na praia); e, até, certas formas verbais e flexões em género e número (“ter pego”, “foi aceito”). Para não falar dos inúmeros termos que se escrevem de forma distinta, como idéia/ideia, fato/facto ou cotidiano/quotidiano.

É motivo para nos perguntarmos como, no meio de tantas divergências, nos conseguimos entender!

E é também um bom pretexto para reflectirmos sobre isto: qual é, ou quais são, afinal, os critérios que permitem diferenciar duas línguas? Por outras palavras, a partir de que momento é que podemos dizer que dois códigos linguísticos, ou duas variações de um código comum, são, de facto, dois idiomas distintos – e não simplesmente variantes ou dialectos?

28 março 2007

Açoriano?? Mas Açores escreve-se com e...

Já tive algumas discussões amigáveis a propósito da palavra açoriano! E as pessoas teimam no erro, alegando “Mas Açores escreve-se com e...”.
Ora, apesar de o nome Açores ser grafado com a vogal e, açoriano escreve-se com i, uma vez que esta é uma palavra derivada por intermédio de um sufixo que começa com a vogal i: -iano (trata-se de um sufixo que exprime, entre outros, o significado de origem, naturalidade, tal como em canadiano).
Ao juntarmos qualquer sufixo a uma palavra que termine em vogal, verificamos que essa vogal desaparece, por exemplo: França + ês = francês (e não *françaês); sapato + aria = sapataria (e não *sapatoaria). Se, por outro lado, a palavra terminar em -s, desaparece não só esta consoante, mas também a vogal que a precede, por exemplo: flores + inhas = florinhas (e não *floresinhas).
E é o que acontece com açoriano. À palavra Açores juntámos o sufixo -iano e o «es» caiu automaticamente. O polémico i pertence, portanto, ao sufixo.


Curioso, que com a palavra cabo-verdiano ninguém hesita, porque senão seria a minha vez de porfiar: «Mas Cabo Verde escreve-se com e ...»

27 março 2007

Um "a" que faz a diferença...

A quem confunde os termos despercebido e desapercebido, deixamos aqui uma definição bem simples de cada um:

despercebido significa que não é percebido, ou notado (por outrem);
desapercebido significa que não percebe, não repara (em alguma coisa).

Assim, o primeiro termo é adequado em expressões como "passar despercebido"; o segundo é o indicado quando falamos de alguém que se "fez de desapercebido" (ou seja, de desentendido).

E boa sorte, para quem vai fazer teste de TEC logo à tarde :)

26 março 2007

Afinal, porque é que raiz não leva acento agudo e raízes leva?!

Quando a vogal tónica i ou u não forma ditongo com outra vogal imediatamente anterior, é de regra colocar-lhe o acento agudo, precisamente para evidenciar que há um hiato, ou seja, que as duas vogais pertencem a sílabas diferentes. É o que acontece com as palavras Luís, miúdo, saúde, país, juízo, etc. – regra que se aplica também às palavra raízes.

No entanto, existem alguns casos em que a vogal não leva acento agudo, ainda que não haja ditongo com a anterior: sempre que, depois do i ou do u tónico estejam as consoantes l, m, n, r, z – desde que estas não iniciem nova sílaba – ou o dígrafo nh.

Assim se explica que paul, amendoim, saindo, cair, raiz e bainha não se escrevam com acento gráfico, ao passo que abaúlo, contribuímos saída, caíste, raízes levam o acento agudo.

Reparem que esta regra de acentuação, como quase todas as outras, tem lógica: no caso da primeira série de palavras, seria difícil pronunciá-las de forma diferente, com a tónica noutra vogal. Por isso, o acento gráfico é desnecessário. Já as segundas, sem o acento, induziriam os falantes em erro, porque facilmente seriam levados a pronunciar na mesma sílaba aquelas duas vogais juntas: “a-bau-lo”, “con-tri-bui-mos”, “sai-da” e por aí fora, quando, na verdade, se trata de a-ba-ú-lo, con-tri-bu-í-mos e sa-í-da.

22 março 2007

Quem consegue...

formar 9 palavras APENAS COM AS LETRAS OAPRT ?

21 março 2007

Há histórias e estórias...

História e estória são, em rigor, duas possibilidades gráficas da mesma palavra.

Contudo, foi só há relativamente pouco tempo que a grafia “estória” começou a ganhar visibilidade, o que no meu entender se deve, em larga medida, a uma moda – porque a língua também é afectada pela moda, e não é pouco. Basta pensarmos nos nomes próprios que se põem aos bebés em determinadas épocas, conforme personagens de livros (antigamente) e de telenovelas, ou vedetas da vida real (hoje).

Assim, nota-se que muita gente, inclusive autores de literatura portuguesa e juvenil, usa preferencialmente o termo "estória" quando o significado é "narrativa ficcional, fantasiosa", optando por reservar o segundo para os contextos em que signifique "relato ou sucessão de eventos factuais".

Todavia, nada nos impede de usar apenas a grafia história para ambos os sentidos, já que ela também contempla o significado que hoje se atribui a estória. O que não é aconselhável é usar o termo estória quando nos referimos à disciplina científica que descreve factos reais (a tal História com maiúscula), ou a uma qualquer narrativa que seja baseada em acontecimentos que tiveram, de facto, lugar.

Porque, ao que parece, afinal, uma coisa são as histórias, outra as estórias...

20 março 2007

“SMSs” ou “SMS’s”?

(Este texto foi escrito por sugestão do Jaime!)

Quem é que não teve já uma dúvida deste tipo, fosse com a sigla SMS, fosse com outra qualquer, como CD ou DVD...?

Se o plural de palavras estrangeiras leva algumas pessoas a franzir o sobrolho e a hesitar na escrita (e há quem não hesite e escreva barbaridades como “atelieres”, “collant’s” ou “design's”), o plural das siglas pode revelar-se ainda mais problemático para mais gente.

De facto, onde e como devemos colocar o s ?

A resposta mais lógica e rigorosa é... em lado nenhum! Na verdade, não se justifica adicionar a uma sigla uma letra a mais (que não é inicial de nenhuma palavra e, portanto, não faz parte dela). Devemos dizer e escrever vários CD e não “vários CDs”, muito menos vários CD’s”. Porque, bem vistas as coisas, mesmo que o nome representado esteja no plural (por exemplo, bilhetes de identidade ou "ateliers" de tempos livres), as iniciais que compõem a sigla permanecem as mesmas, ou seja, temos os BI e os ATL. Portanto, sempre SMS – seja plural ou singular.

Este é um dos casos em que as gramáticas simplificam, mas os falantes complicam!

19 março 2007

Prefere um cafezinho ou um chazinho bem quentinho?


Muitos erros de ortografia resultam da falta de acentos, mas também do seu excesso.

É o que acontece em palavras como cafezinho, chazinho e sozinho, as quais muita gente insiste em grafar com acento: *cafézinho, *sózinho, *cházinho.

Ao associar o sufixo -zinho às palavras café, chá e , o acento tónico (mais forte) passou a recair na sílaba zi, razão pela qual não faz sentido manter o acento gráfico que existia nas palavras primitivas (se pronunciarmos essas palavras pausadamente, verificamos que a sílaba forte é, sem dúvida, a sílaba zi).

Esta regra é válida para qualquer palavra derivada por sufixação, cuja palavra primitiva contenha um acento gráfico. Veja-se, por exemplo, os advérbios terminados em -mente: as palavras obviamente e psicologicamente não precisam de acento agudo, pela mesma razão: ao associar o sufixo -mente às bases óbvio e psicológico, o acento tónico avançou para a sílaba men, exigindo a supressão do acento gráfico que existia nessas palavras.

A propósito, prefiro um chazinho bem quentinho a um café!

Não convém esquecer também que o verbo preferir rege a preposição a: “preferir uma coisa a outra” e não “do que outra”.

16 março 2007

Palavras com dupla grafia

Não são muitas, mas há algumas palavras em português que admitem duas grafias, de acordo com os dicionários actuais. Nalguns casos, e para responder ao Luís Martins, podemos dizer que uma delas é “mais correcta” do que a outra, ou pelo menos preferível, por ser a mais antiga. Até porque, em muitos desses casos (embora não em todos), a duplicação da grafia está associada à generalização do erro.

Aqui fica uma lista abreviada, admitindo que são estas as que mais usamos no dia-a-dia. Nos pares em que isso se aplica, sublinhámos aquelas que se podem considerar como mais legítimas, apesar de ambas estarem contempladas nos dicionários:

bêbedo / bêbado

baloiçar / balouçar (e muitos outros pares em que se alternam ou/oi)

carrossel / carrocel

cobarde / covarde

controlo / controle

desfrutar / disfrutar

espécimen / espécime

fêvera / fevra / febra

fôlego / folgo

impacte / impacto

maquete / maqueta

omelete / omeleta

organograma / organigrama

perda / perca

piaçaba / piaçá

potro / poldro

reclame / reclamo

repertório / reportório

rescrever / reescrever

restruturar / reestruturar

rotura / ruptura

síndrome / síndroma

taberna / taverna

toxicidade / toxidade

urtiga / ortiga

14 março 2007

“Oh” ou “ó”?

Esta sugestão foi dada pelo Jaime. Obrigada, Jaime ;)


Muita gente hesita, na escrita, entre “oh” e “ó”, quando quer registar a interjeição que acompanha frases exclamativas, como “Oh, não!” ou “Ó Maria!”

A diferença entre “oh” e “ó” é simples: a primeira exprime espanto, admiração. A segunda usa-se no discurso directo e exprime chamamento, quando pretendemos interpelar alguém directamente. Assim, mesmo numa frase como “Oh, meu Deus!”, devemos usar a primeira, pois não estamos propriamente a falar com Deus.



13 março 2007

Obrigado ou obrigada?

Uma leitora do nosso blogue enviou-nos um e-mail em que se queixava de ser corrigida quando dizia "obrigada" por pessoas que alegavam ser obrigado a única forma de agradecimento válida para ambos os sexos. A nossa opinião sobre isto é a seguinte:


A palavra obrigada/o é uma forma participial do verbo obrigar e, como tal, admite a flexão no feminino, tal como acontece com "agradecida/o", do verbo agradecer. Assim, uma mulher pode legitimamente dizer que está, ou que se sente, "muito obrigada" por um favor que alguém lhe fez.
Contudo, tratando-se de uma interjeição, também é natural que muita gente resista à ideia de flexioná-la no feminino, uma vez que as interjeições são invariáveis. Sob esse ponto de vista, tanto um homem como uma mulher podem dizer simplesmente "obrigado", com a mesma naturalidade com que dizem "olá", "adeus", ou "viva".
Há, portanto, lugar para uma certa ambiguidade na interpretação do termo, conforme este seja encarado como particípio verbal ou como interjeição.
O problema é que a consulta de um dicionário nem sempre nos ajuda a decidir o que fazer (neste caso, dizer "obrigada" ou não). O Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências, por exemplo, apresenta "obrigado" (no masculino) como interjeição (acepção n.º 3) e, ao mesmo tempo, apresenta o respectivo exemplo no feminino ("Obrigada, disse a senhora"), contrariando o princípio de que as interjeições são invariáveis.

Resumindo, a flexão é legítima, por razões etimológicas, mas talvez venha a perder-se, em virtude da classe a que a palavra está agora afecta, quando é usada como expressão de agradecimento.

12 março 2007

Novidades do Torneio

Já foram apurados os 13 concorrentes que passarão à fase seguinte do Torneio, a segunda prova qualificativa! Enviem-nos um e-mail para linguaportuguesaisec@gmail.com, se quiserem saber se o vosso nome consta da lista.

A todos os que concorreram, obrigada pela vossa participação! Aos que foram seleccionados, deixamos os nossos parabéns e votos de boa sorte.

Quem adivinha...

o nome de uma localidade em Portugal que se escreve com 5 VOGAIS SEGUIDAS?!

09 março 2007

Palavras mágicas

É engraçado reparar como há palavras que parecem ter um poder imenso sobre as pessoas – concretamente, sobre os consumidores.

Já repararam na quantidade de embalagens de alimentos cujo texto contém as palavras “SELECCIONADO”, “EXTRA” ou “LIGHT”?

É curioso como esses termos, que na realidade não indicam absolutamente nada que seja de facto importante ou verdadeiro sobre a natureza do produto, contribuem para que ele se venda. Umas têm uma carga positiva associada à ideia de superioridade (EXTRA, PLUS...). Outras parecem implicar automaticamente a excelente qualidade do produto (SELECCIONADO, BIOLÓGICO). Outras ainda parecem soar melhor apenas por serem diferentes ou estrangeiras (como LIGHT ou ACTIVE – ou mesmo “ACTIV”).

Contudo, se pensarmos bem, são apenas palavras. Em muitos casos, palavras cujo sentido é vago, sobretudo porque aparecem frequentemente descontextualizadas. Palavras simples, que não foram escolhidas pelo produtor ou fabricante para qualificar honestamente o artigo, nem tão-pouco pelo consumidor que o tivesse experimentado e avaliado. São palavras que servem para nos atrair, mas que não fornecem garantias de espécie nenhuma. Palavras que parecem significar tanto e acabam por não significar nada!

07 março 2007

ALTERAÇÃO DA DATA DA 1ª PROVA DO TORNEIO ISEC DE LÍNGUA PORTUGUESA


A pedido de vários concorrentes, a Comissão Organizadora resolveu alterar a data prevista para a
1ª prova do Torneio de Língua Portuguesa para os alunos do ISEC. Em vez de sábado, dia 10, será antes no

DIA 12 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA, ÀS 13 HORAS.

Esperamos, sinceramente, que esta alteração seja do agrado de todos os concorrentes, sobretudo daqueles que consideraram desistir de participar em virtude da data da prova.

BOA SORTE A TODOS! E até segunda-feira...!

1ª PROVA QUALIFICATIVA DO TORNEIO ISEC DE LÍNGUA PORTUGUESA!

Está prevista para o próximo sábado, dia 10, às 11 horas, a primeira das duas provas qualificativas destinadas a seleccionar os alunos do ISEC que se candidataram ao Torneio da Língua Portuguesa.

Queremos, desde já, desejar-lhes boa sorte nesta etapa, felicitá-los pela iniciativa de participarem e também agradecer-lhes – porque, afinal, sem eles não haveria Torneio.

A todos os que ainda não se inscreveram, queremos deixar aqui um convite final: AINDA ESTÃO A TEMPO!!! Aceitamos inscrições até à hora da primeira prova, de modo a dar-vos todas as oportunidades possíveis para se decidirem a participar ;)

06 março 2007

Uma factura discriminada, se faz favor!


Não há quem não tenha já feito um pedido como este, num restaurante, ou noutro qualquer estabelecimento comercial.
O verbo discriminar provém do latim discriminare e tem como significado original “separar, diferenciar”, do qual resultou um segundo significado “tratar de forma desigual, rejeitar”, presente em frases como: “ele foi discriminado pelos colegas por ser de raça diferente».
Por sua vez, o verbo descriminar está relacionado com a palavra crime; significa “livrar de culpa ou crime, absolver”, sinónimo de descriminalizar.
Mas é no primeiro caso – o da factura – que normalmente as pessoas se enganam, “pedindo uma factura descriminada” em vez de “discriminada”, talvez por analogia com o verbo descrever - «factura com tudo descrito ao pormenor», será?
Ou a factura terá cometido algum crime pelo qual pedimos absolvição?!

05 março 2007

O pleonasmo de que toda a gente gosta

Desde que me lembro até hoje, sempre que alguém involuntariamente deixa escapar um “subir para cima”, ouve logo isto: “subir para cima?! E havia de ser para baixo?” Ou seja, sempre que alguém se distrai ao ponto de cair nesse pleonasmo aparentemente ridículo e chocante, há logo quem “lhe salte em cima” com a troça, a crítica, ou (na melhor das hipóteses) a simples chamada de atenção.

No entanto, curiosamente, ouço muita gente bem falante, inclusive professores de Português, a dizer “tenho um amigo meu que...”

Então, se o “têm”, isso não quer já dizer que o amigo é deles?!

A mim sempre me ensinaram que se deve optar entre dizer “tenho um amigo que...” e começar a frase por “um amigo meu”. Mas se quiserem insistir no pleonasmo, não tenho nada contra. Só peço que sejam mais brandos com quem “sobe para cima”... Porque, afinal, todos temos telhados de vidro!

02 março 2007

As perguntas colocam-se ou fazem-se?

“Fazer perguntas” era uma expressão que toda a gente usava e da qual ninguém desgostava, penso eu (que até sou nova de mais para me lembrar desse tempo :)). Faziam-se perguntas complicadas, embaraçosas, difíceis, indiscretas e por aí fora – mas todas as perguntas eram feitas.

Hoje em dia, pelo menos a julgar pelo que se ouve na comunicação social (e pelo que já se lê nalguns dicionários, é certo), as perguntas já não se fazem – já nem se põem... COLOCAM-SE! É muito mais bem sonante, sem dúvida. Basta “colocar-se uma questão” em vez de se “fazer uma pergunta” e o nosso registo sobe logo de corrente para cuidado.

Contudo, será legítimo “colocar perguntas” na nossa língua?

A mim soa-me a galicismo (poser = colocar - des questions). Até porque se usa mais o verbo colocar com o termo questão do que com a palavra pergunta, talvez porque “question” é pergunta em francês. Mas enfim...

Nada como uma moda nova para renovar a língua, de modo a não nos fartarmos dela!


01 março 2007

Estarão alguns tempos verbais a mudar?


Se reflectirmos um pouco sobre o uso de alguns tempos verbais em Português, vamos encontrar algumas surpresas!

O Presente do Indicativo raramente exprime uma acção no momento presente: as frases “fazemos ginástica” ou “lemos jornais” não significam que nos encontramos a fazer ginástica ou a ler jornais neste preciso momento. Estas sequências exprimem, sim, uma acção habitual, frequentativa (= costumamos fazer ginástica e ler jornais).

Por outro lado, numa frase como “Vamos a Paris nas próximas férias”, usamos um verbo no Presente com uma ideia de futuro (= iremos).

Quanto ao Pretérito Imperfeito, quem não conhece o célebre diálogo num café “Queria um copo de água, se faz favor!”; “Queria?! Porquê, já não quer?!”. Neste caso, verificamos que o Imperfeito exprime uma acção presente (= quero).

E numa frase como “Gostávamos de visitar essa cidade”, usamos o Imperfeito em vez do Condicional (= gostaríamos).

Estarão os tempos verbais a mudar?

28 fevereiro 2007

Não tenham medo de "ter aceitado"!

A hipercorrecção – acto que consiste em pretender corrigir-se, ou corrigir alguém que usa uma construção correcta, substituindo-a por uma errada – está sempre a fazer das suas...

Ora nos olham de lado por pedirmos “duzentos gramas de fiambre”, ora se riem na nossa cara quando dizemos “ter entregado”, ora torcem o nariz quando nos ouvem dizer “ter intervindo”, “reouve”, “abaixado” e outras palavras ou expressões que se tornaram estranhas, simplesmente porque algumas pessoas se convenceram de que não eram correctas.

Por vezes, temos mesmo a sensação de que remamos contra a maré. Afinal, como perguntava um aluno há tempo, se a maioria das pessoas anda a cometer o erro, isso não significa que a forma errada vai substituir a correcta?

De facto, é provável que isso aconteça com algumas estruturas. Prova disso é que o Particípio Passado regular do verbo pagar, que era pagado, caiu em desuso... Será esse o destino de entregado, matado, aceitado e tantos outros Particípios regulares de verbos com duplo Particípio? Tudo indica que sim.

Mas para já, não faz sentido que repudiemos essas formas, quando até usamos outras semelhantes, que por alguma razão curiosa não estranhamos, como prendido, acendido, libertado ou descalçado.

Deixamos então aqui um esclarecimento para quem, como nós, esteja disposto a remar contra a corrente da hipercorrecção:

quando os verbos têm duas formas de Particípio (aceitado/aceite, entregado/entregue, matado/morto, etc.), a mais longa, terminada em -ado/-ido, usa-se nos tempos verbais compostos, com o auxiliar ter. Por exemplo: “que pena eles não terem aceitado o convite”; “já lhe tinha entregado o livro”; “os acidentes de viação têm matado muita gente”.

A mais curta, que é a forma irregular, usa-se nas construções passivas, com auxiliares como ser, estar, ficar, etc. Por exemplo: “o convite não foi aceite”; o livro já está entregue”; “muita gente foi morta”.

Portanto, não tenham medo de dizer “ter aceitado” – como muitos jornalistas, comentadores, políticos e intervenientes na sociedade parecem ter!

27 fevereiro 2007

Ler bem para escrever melhor


Uma das generalizações a que quase nenhum professor de Português resiste é esta: “eles escrevem mal, porque não lêem.”

Sabemos que isto não se aplica a toda a gente, mas há muitos alunos que admitem não ler “livros a sério” e até concordam que escreveriam melhor se o fizessem. Aqueles que afirmam ler bastante e confessam escrever mal são casos excepcionais.

É claro que, hoje em dia, nem tudo o que se lê vale a pena, nem tudo o que está escrito está bem escrito, sobretudo na Internet, que deve ser a fonte de leitura mais consultada pelos estudantes – pelo menos a julgar pelas “bibliografias” que agora apresentam no final dos trabalhos.

Mas uma coisa é certa: raríssimos são aqueles que lêem muito (livros a sério) e escrevem mal.

A pergunta que fica no ar é esta: afinal, o que são livros a sério?!


26 fevereiro 2007

Lavaste e lavas-te


A frequente dúvida de se pôr ou não hífen em determinadas formas verbais pode ser resolvida com dois simples truques!

Na frase “Lavaste o carro ontem?”, a forma “lavaste” escreve-se sem hífen, porque o TE é parte integrante do verbo, trata-se da desinência da 2ª pessoa do singular no Pretérito Perfeito do Indicativo (veja-se o restante paradigma: lavei, lavou, lavámos, lavaram).

Na frase “Lavas-te com sabonete?”, a forma “lavas-te”, pelo contrário, é grafada com hífen, de modo a separar a forma verbal “lavas” do pronome pessoal reflexo TE (lavo-me, lava-se, lavamo-nos, lavam-se). Por conseguinte, não se trata do mesmo TE.

O primeiro truque consiste no uso da negativa. Se escrevermos ambas as frases na negativa, verificamos uma pequena alteração: “Não te lavas com sabonete?”, “Não lavaste o carro?”). No primeiro caso, o pronome te mudou de posição, significa, portanto, que na afirmativa se escreve com hífen: LAVAS-TE; no segundo caso, não houve qualquer mudança, por isso na afirmativa escreve-se sem hífen: LAVASTE.

O segundo truque consiste em verificar qual é a vogal mais forte (tónica) da palavra. No caso de se usar o hífen, a vogal tónica fica mais longe da terminação da palavra (“lávas-te”), no caso de não se usar hífen, a vogal tónica é a que está mais perto do TE (“laváste”).

São velhos os truques, mas funcionam sempre em caso de dúvida!

S. Duarte

23 fevereiro 2007

Vá lá, inscrevam-se no Torneio!...

O dia da primeira prova qualificativa aproxima-se e nós, professoras organizadoras, sentimos a desilusão do costume perante a falta de inscrições dos alunos do ISEC para o Torneio que tanto trabalho nos dá a preparar...

Este ano, além de andarmos a impingir boletins de inscrição nas aulas (!), vamos aproveitar este espaço para tentar entusiasmar-vos.

Reparem nas vantagens: a inscrição é gratuita; a participação oferece-vos a oportunidade de se divertirem, de aprenderem e de mostrarem o que sabem. Na final, podem levar uma claque de fãs, com cartazes e tudo, para se sentirem umas verdadeiras estrelas nacionais. Se por acaso derem algumas respostas erradas, ninguém vai gozar convosco, porque toda a gente sabe como se sentiria no vosso lugar se isso acontecesse. Pela nossa experiência, o Torneio é um momento de confraternização, de aproximação entre as pessoas e de divertimento e descontracção. Se acertarem nas respostas, existe ainda a probabilidade de ganharem um prémio (de terceiro, segundo ou, quem sabe, primeiro lugar!), que por agora não dizemos qual é, para vos aguçar o apetite.

Quanto a desvantagens, ...aaaah........ . Pois... não nos ocorre nenhuma!


22 fevereiro 2007

"O sentinela" ?!

Vi há pouco tempo um filme com este título e fui ao dicionário verificar se já seria correcto o uso do determinante no masculino. Confirmei que sentinela é um substantivo feminino, por defeito (ou virtude!), e que deve ser usado como tal, mesmo que com ele nos refiramos a uma pessoa do sexo masculino. Exactamente como acontece com (a) criança, (a) testemunha ou (a) vítima.

Quem diz “o sentinela” está, portanto, a cometer um erro de morfologia, assim como quem diz “o ênfase”, “o síndroma”, “uma grama” e por aí fora. Mas, se a frequência destes erros o justificar, os dicionários e gramáticas passarão a contemplar os dois géneros para esses substantivos, como aconteceu com bebé e avestruz, que eram apenas masculinos e passaram a poder ser precedidos de artigos flexionados em ambos os géneros. Porque não há nada mais democrático do que a língua!


21 fevereiro 2007

Mais shampoo... ou champô!



Adaptar ou não adaptar as palavras estrangeiras, de forma a que se adeqúem melhor às regras ortográficas do português... Não chegámos a dar a nossa opinião, quando aflorámos o assunto no dia 16.

Ora, ao contrário do que pode parecer à primeira vista, não se trata apenas de optar por uma ou outra via ("blog" ou "blogue"...) e seguir o mesmo critério para todas as palavras que vão surgindo. Isso seria fácil de mais para funcionar na prática.

A questão que se deve colocar para cada termo é esta: o aportuguesamento representa uma maior clareza, no que respeita à pronúncia? Porque, na esmagadora maioria dos estrangeirismos, os falantes que os "importam" preocupam-se em pronunciar as palavras como o fazem os falantes da língua de origem. Dizemos, por exemplo, "sârfe" (e não "surfe"), "bâicane" (e não "bácôm"). Mas não mudámos a grafia das palavras surf e bacon. Porquê?

No nosso entender, nesses dois casos como em muitos outros, a adaptação não seria conveniente, porque o resultado seriam palavras de forma estranha e que talvez não suscitassem uma leitura inequívoca. Já "futebol" e "maionese", por exemplo, não deixam dúvidas quanto à respectiva pronúncia e têm uma forma perfeitamente aceitável... até parece que nasceram cá!

Porém, no que respeita a decidir se a adaptação é legítima ou não, nem temos de nos preocupar muito, porque os falantes (e "escreventes"!) costumam optar, intuitivamente, pelas formas que são mais simples de entender. E que são agradáveis à vista! Porque se trata também, no fundo, de uma questão de sensibilidade, digamos, à falta de melhor termo: "ecrã" e "batom" parecerão a qualquer pessoa adaptações lógicas, enquanto "imaile" e “tisharte” têm uma forma que, logo à partida, não convenceriam nem conquistariam ninguém.

Os termos estrangeiros levam tempo a integrar-se na língua ao ponto de já nem repararmos que vieram de outra. Mas não vale a pena desesperarmos por causa disso! Como muitos leitores sugeriram, o melhor mesmo é aceitar que se usem, pelo menos temporariamente, duas grafias para a mesma palavra. O tempo encarregar-se-á de apagar uma delas.


19 fevereiro 2007

Peru com direito a suplemento!



Há muito que andava tentada a meter-me com os rapazinhos do talho onde habitualmente compro carne acerca de um assunto que me provocava um certo tormento. Há dias, não resisti. Perguntei: “hoje o peru é mais saboroso por ter um suplemento?”

Ele respondeu, com um ar de grande admiração: “Desculpe?!”

“Refiro-me ao acento!” Retorqui eu, em jeito de esclarecimento: “A palavra peru não tem acento!”

As palavras agudas terminadas em -u (peru, nu, cru, caju) e em -i (javali, colibri) não precisam de acento gráfico. Apenas se acentuam as palavras agudas terminadas em -ó(s) ou -ô(s) (avó, avô), em -é(s) ou -ê(s) (café, você), em -á(s) (está, ananás) e em -em/-ens, se não forem monossílabos (também, parabéns).

Por sua vez, só se acentuam graficamente palavras terminadas em -u(s) ou -i(s) quando estas são graves, precisamente porque, caso contrário, a tendência seria para as lermos como se fossem agudas (júri, ténis, vírus, bónus, etc.).

Esta explicação já não a dei, é claro, senão o rapazinho ter-se-ia recusado a vender-me o peru!

S. Duarte

16 fevereiro 2007

Bom fim-de-semana!

Como o blogue é novo e, felizmente, já tem alguns leitores assíduos, gostaríamos de informá-los de que não tencionamos publicar artigos durante os fins-de-semana.
Aproveitem para descansar os olhos e... até segunda!
E obrigada por estarem desse lado.