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07 setembro 2009

"Vir ao de cima" ou "ao de cimo"?

Qual será a construção correcta deste provérbio português tão conhecido?

«A verdade e o azeite vêm sempre ao de cima»
ou
«A verdade e o azeite vêm sempre ao de cimo»?

Ao de cima é uma locução adverbial que significa «à superfície». Cimo é um nome masculino que designa a parte mais elevada de alguma coisa. Seria correcto utilizar a expressão «ao cimo», mas não “ao de cimo”!
Por conseguinte, a construção correcta é «a verdade e o azeite vêm sempre ao de cima».
Azeite, de cima; mel, do fundo; e vinho, do meio!

28 agosto 2009

Laura, de áurea aura

Áureo é «de ouro banhado»,
Aura é «sopro, emanação».
Portanto, áureo é dourado
E a aura etéreo clarão.

Mas, se o teu cabelo é louro
fico na dúvida, Laura!
Pois aúreo parece de ouro...
E se for dourada a aura?

Então, vamos lá ver:
se estou apaixonado
e é áureo o teu cabelo,
como é que devo dizer:
tens uma áurea de encanto
- ou no termo estarei enganado?

29 julho 2009

A triste história da camisola em Portugal



Era uma vez uma camisola, que havia chegado há muitos séculos a Portugal. Viera de França, mas sem grandes pretensões nem ambições.
Entrara devagar, com discrição e humildade, no nosso léxico e nem se importara quando a obrigaram a substituir o seu e final por um a mais português. O que ela queria era mesmo ficar por cá, por isso achou bem assumir uma forma que a identificasse e confundisse mais com as palavras portuguesas. E a sua vontade e determinação foram tão fortes, que os falantes se esqueceram de que a camisola tinha vindo de fora, acarinhando-a como cidadã do léxico nacional.

Um dia, porém, quando ela própria já tinha esquecido as suas origens, os falantes começaram a impacientar-se com ela. Alguns deixaram de a querer usar, sem razão aparente. Outros acusavam-na de ser demasiado ambígua, de servir para tudo e para nada, de não satisfazer as suas necessidades vocabulares. Alegavam que outras palavras, frescas e sofisticadas, se revelavam muito mais eficazes para aplicar nos diversos contextos em que as camisolas não eram, afinal, simples camisolas. E as divertidas t-shirts, as confortáveis sweat-shirts, os bonitos pullovers, as frívolas sweaters e os jovens tops foram-se insinuando na cabeça dos falantes. Mas, como eram cheias de si, estas palavras fizeram uma exigência: que a sua forma e graça original fossem sempre mantidas, de modo que não admitiam mudanças ortográficas nem deslizes de pronúncia.
E as camisolas, que antes nos tinham servido tão bem, em todas as ocasiões, foram preteridas em favor dessas novatas impertinentes, que agora se julgam as melhores do mundo.

É uma história comum, infelizmente...

27 julho 2009

O absurdo de suicidar outrem


Segundo o
Dicionário on-line da Língua Portuguesa, o verbo suicidar-se é sempre pronominal (não existe "suicidar") e tem as seguintes acepções:

1. Matar-se voluntariamente.
2. Fig. Arruinar-se, ser causa da própria ruína.

Outros dicionários acrescentam que "sui" é latim e significa "de si", pelo que o suicida é aquele que provoca a sua própria morte, ao contrário do homicida (e a esta luz a pronominalização até parece redundante, já que quem se suicida o faz necessária e exclusivamente a si próprio).
Ora, isto não será surpresa para ninguém... excepto talvez para os responsáveis pela definição do mesmo verbo no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, para quem o verbo suicidar (de suicida + -ar) tem um terceiro sentido, que é «destruir completamente», podendo por isso ser sinónimo de «ANIQUILAR, MATAR, TRAIR». E para que não restem dúvidas, lá está o exemplo, a frase que citei na entrada anterior: «O tradutor suicidou o texto».

Os comentários a esta frase na semana passada não foram muitos, mas eu não tenho dúvidas de que, pelo menos ao falante comum, aquele emprego do verbo suicidar se afigura no mínimo estranho. E como não se trata de uma acepção de um domínio técnico ou científico, nem encontro outro dicionário que corrobore aquela informação, começo a pensar que a pessoa que a escreveu se encaixa num destes perfis:

a) abusador de drogas
b) criativo compulsivo
c) abusador de drogas e criativo compulsivo

Posso estar enganada, mas... quem é que me desengana?!


23 julho 2009

Suicídio homicida

Hoje apresento-vos esta frase:

«O tradutor suicidou o texto.»


Gostaria que nos dessem a vossa opinião sobre o emprego que nela se faz do verbo suicidar. Estará correcto? Será usual? A mim soa-me muito mal! Depois vos direi onde a encontrei...

21 julho 2009

A suspensão do suspense....


Desde criança que sempre ouvi dizer suspense com um u assobiado afectadamente, a atirar para o ditongo - [ju] -, um s bem sopradinho por entre os dentes e a letra e transformada em "ã", para tornar bem claro que era uma palavra francesa.
Há muitos anos, contudo, também ouvi alguém dizer (quem teria sido essa alma iluminada?) que andava tudo enganado, porque a palavra suspense era de origem inglesa e, como tal, a pronúncia afrancesada não fazia qualquer sentido e deveria ser prontamente substituida, claro está, por um sotaque muito British, em que o u afinal se tornava um "a".

Os falantes de português pareceram-me então divididos em dois grupos: o dos que faziam uma boquinha pequena para sussurrar o "siuspanse" franciú e o dos que a abriam corajosamente para vocalizar um "saspenssss" à bife. E era preciso decidir qual o lado a escolher, para poder usar aquele estrangeirismo. Porque, tenho de admitir, havia ocasiões em que me parecia que ele era necessário, por mais que me esforçasse por substituí-lo por palavras mais vernáculas, como "suspensão" ou "expectativa-angustiante-mas-que-ao-mesmo-tempo-dá-um-certo-gozo-relativamente-ao-desenrolar-dos-acontecimentos-sobretudo-nas-narrativas-literárias,-televisivas-dramáticas-ou-cinematográficas".

Um dia, resolvi consultar o Dicionário Etimológico de José Pedro Machado e verifiquei, sem grande surpresa, que "suspense" não constava do rol de palavras sobre as quais se forneciam preciosos dados relativos à sua introdução na nossa língua. Mas o Houaiss confirma que se trata de um empréstimo do inglês, que por sua vez foi importado do francês, que por sua vez deriva, claro está, do latim.
Contudo, a origem não é o que mais importa, no fim de contas. Se estivéssemos à espera de saber de que língua vêm todos os estrangeirismos que utilizamos para os podermos pronunciar correctamente, teríamos de suspender o discurso a todo o momento para consultar fontes eruditas, por exemplo antes de dizer pijama, iate ou iogurte.
E o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea aí está para demonstrar que a contenda entre os sotaques francês e inglês para pronunciar "suspense" não se resolve por via erudita: o que conta é a forma como se convencionou dizer a palavra entre nós, ou seja, a pronúncia que nele se recomenda é a que foi consagrada pelo uso e que (lamentavelmente ou não, depende do ponto de vista), acaba por não ser fiel a nenhuma das duas: "suspanse".

Para mim, o "suspanse" perdeu a graça. Não é carne nem peixe, não aquece nem arrefece. Com a desvantagem de criar uma relação imprevisível entre o "a" sonoro e o "e" escrito, que dá azo a erros ortográficos.
Mas pelo menos já podemos pronunciar todos a palavra da mesma maneira, sem receio de que alguém nos venha dizer que estamos enganados. Valham-nos os dicionários com chave fonética!

15 julho 2009

Cuidado com o alien, um termo alienígena!

A minha filha de seis anos propôs-me este jogo verbal: dizermos à vez palavras começadas pela letra A. Depois da aranha, do ananás, da ave e da águia, da água e do avião, ela saiu-se com o alien. E, na sua inocente determinação, recusou-se a acreditar que a palavra não existia em português.

E a verdade é que a moda dos aliens (dito à portuguesa, "álienes") parece ter vindo para ficar (há 26800 ocorrências no Google em páginas de Portugal). Mas a mim parece-me tola mais esta vénia ao inglês - língua que eu adoro, mas não misturada com a nossa. Estão a ver peixe com carne? É mais ou menos isso...

Afinal, se temos os estrangeiros, os estranhos, os extra-terrestres e os alienígenas, para que é que precisamos dos híbridos "álienes"?!
Bem sei que vem do latim, mas não é por isso que faz cá falta uma consequência das más traduções no cinema...

09 julho 2009

redundância tautológica em jeito de pleonasmo

É tão fácil cair na redundância que quase ninguém resiste a dizer "costumo fazer sempre assim" ou "tenho um amigo meu".
O dicionário Priberam, aliás, informa que a tautologia consiste numa «repetição inútil da mesma ideia em termos diferentes» - ou seja, exemplificando, ao mesmo tempo que define o conceito: tratando-se de uma repetição, para quê dizer que a ideia é «a mesma»?! Isto dá para ver como a tautologia é uma espécie de armadilha em que ninguém deve ter a veleidade de dizer que não cai ou nunca cairá...
Se nos repetimos desnecessariamente, para além de estarmos sujeitos a que se riam de nós ou nos corrijam, ainda podemos induzir os outros em erro, a respeito do que realmente queremos dizer. Quando alguém comenta que "gostou tanto da comida, que repetiu duas vezes", fico sempre na dúvida: serviu-se três vezes ou caiu na malfadada tautologia? Ontem ouvi alguém dizer na rádio que «os alunos repetiam novamente o mesmo ano». Fiquei sem saber se havia ali uma dupla redundância ou se devia fazer uma interpretação mais rebuscada da frase.
Hoje li numa publicação periódica um artigo (interessante, é preciso dizer), cujo infeliz título era este: «Morte súbita ocorre sem aviso prévio». Sendo o assunto sério, acho mal que nos façam rir do texto logo ao início!
E por falar em rir...

01 julho 2009

Receber ou recepcionar?

Lá estamos nós a complicar...

A verdade é que ontem ouvi alguém dizer que estava "prestes a recepcionar um documento" e fiquei a pensar sobre o motivo que teria levado tal pessoa a escolher aquele verbo em lugar do velho, simples, inequívoco e bem conhecido receber.
Ocorreu-me que talvez fosse para dar um ar mais formal ao discurso. Como quem diz "colocar" em vez de pôr, "referenciar" em vez de referir, "visionar" em vez de ver, "focalizar" em vez de focar, enfim... Ou seja, tratar-se-ia de escolher uma palavra mais comprida, apenas porque as mais compridas, mais complexas, as chamadas "palavras de sete e quinhentos" (no meu tempo!), vulgarmente conhecidas por palavras caras, são o sinal mais evidente de que estamos a usar um registo cuidado, formal, acima do corrente.
Em todo o caso, faltou-me a certeza: afinal, recepcionar, verbo formado a partir do nome recepção, significa exactamente o mesmo que receber?

Na Infopédia, a «palavra inserida não foi encontrada». O Priberam informa que a palavra é «reconhecida pelo FLiP mas sem definição no dicionário»... Contudo, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa revela que se trata de uma criação do século XX e no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa o vocábulo também está presente.
Mas não se trata de um simples sinónimo de receber: pode ser acolher ou receber alguém, a nível institucional (dar as boas-vindas) ou acusar a recepção de um documento. Portanto, aquela pessoa estava a dizer que iria acusar em breve a recepção do documento (e não apenas que iria recebê-lo). Mas... sabê-lo-ia?

25 junho 2009

Não penso, logo, traduzo



A tradução literal é uma forma de ignorância? Às vezes, parece.

Se não é por ignorância, como se explica que chamemos agora "palavras-passe" (passwords) às senhas de outrora, "condicionadores" (conditioners) aos amaciadores de há anos, "estacionário" (stationery) ao material de escrita de antigamente, e até, por vezes, "rudes" (rude) às pessoas simplesmente mal-educadas?

Se não tivermos cuidado, qualquer dia teremos de nos referir aos conservantes como "preservativos" e à prisão de ventre como "constipação". Sim, meus amigos, porque, em inglês, é isso que significam preservatives e constipation, respectivamente!...

Então, não acham melhor sermos mais criteriosos na forma como tratamos a nossa língua?!

15 junho 2009

"Ter o estigma de que"...


Antes de mais, agradeço a todos os que responderam ao desafio anterior!

Estigma significa marca (física) na pele, um sinal que tanto pode ter sido causado por uma doença, como por um ferro em brasa, ou outro agente causador de uma mancha ou cicatriz. Por extensão, pode ser ainda uma mancha, sinal, que causa vergonha, desonra, ou outro sentimento negativo.

Assim, é possível "ter o estigma de alguma coisa", por exemplo, ter o estigma da derrota, por falhar constantemente. Também podemos "ter o estigma de que", em construções como Aquela instituição tem um estigma de que nunca se livrará ou mesmo O homem parecia ter o estigma de que seria sempre um oprimido - embora esta construção seja pouco usual e mais forçada.
O que não faz sentido é dizer que alguém tem o estigma de que outra coisa é alguma coisa. Ou seja, a frase do desafio («Algumas pessoas têm o estigma [de] que as creches são meros depósitos de bebés») está incorrecta. Aqui, não é legítimo dizer que as pessoas têm "a marca" de que as creches são depósitos de bebés, pois quem tem essa marca são as creches e não as pessoas.
O que se poderia dizer é que as pessoas têm a ideia (preconcebida) de que as creches têm essa função. E parece-me que o motivo do erro está aí: usar-se "estigma" como se significasse "ideia preconcebida". Mas também podemos dizer que as creches é que têm a tal marca, o estigma (atribuído por algumas pessoas), de que servem apenas para depositar as crianças.

Em suma: que os estigmas deixem de marcar as creches e as pessoas, pois só servem para manchar umas e outras!

01 junho 2009

Focar, focalizar e... enfocar?!



Sabendo que todos estes verbos estão atestados em português, a minha pergunta é: será mesmo necessário haver três verbos tão semelhantes na forma e com significados idênticos?
A resposta mais imediata que me ocorre é... não.
No entanto, também não é caso para culpar o excesso de produtividade lexical portuguesa! Até me ficaria mal, dado que já aqui tenho criticado a preguiça generalizada que nos leva a adoptar estrangeirismos a torto e a direito, muitos deles ridículos e desnecessários.
Surge-me, então, outra pergunta: o que é que esta multiplicação de palavras relacionadas com o acto de “pôr em evidência” revela sobre nós?
Que fazemos esforços permanentes para nos concentrarmos no que é importante? Que somos exibicionistas? Que temos alguma falta de visão e por isso nos esforçamos por encontrar a palavra certa para designar a acção de “captar uma imagem nítida”, como se, ao mudarmos de focar para focalizar e de focalizar para enfocar estivéssemos a ajustar o foco da nossa máquina fotográfica mental?
Pois então, se é para ver melhor, se é para visionar, se é para visualizar, foquemos, focalizemos, enfoquemos, “enfocalizemos” o que é preciso!

27 maio 2009

Ciclo vicioso ou círculo vicioso?

A expressão correcta é círculo vicioso.
De acordo com alguns dicionários, esta expressão designa uma sucessão, geralmente ininterrupta, de acontecimentos que se repetem e voltam sempre ao ponto de origem, colidindo sempre com o mesmo obstáculo.
Na doutrina de Aristóteles, esta expressão designa uma falha lógica que consiste em alcançar dedutivamente uma proposição por meio de outra que, por sua vez, não pode ser demonstrada senão através da primeira.
Por conseguinte, faz todo o sentido que a expressão seja círculo, uma vez que as situações se vão repetindo sucessivamente, provocando um impasse, isto é, A dá origem a B e, por sua vez, B dá novamente origem a A. Assim, não se sai do círculo!
A palavra ciclo, por sua vez, designa uma sucessão de fenómenos sistematicamente reproduzidos em períodos regulares.

27 abril 2009

Porque interrogativo?

Nota prévia: este é um assunto linguístico bastante controverso, pelo que respeito quem não concorde com a minha posição.
Passo a enunciar os argumentos a favor da existência de um porque interrogativo:

Factos históricos
A palavra porque provém da forma latina quare, palavra composta (qua + re = por que motivo, por que causa), mas sempre escrita como uma só palavra. Século XV: porque.

Factos lexicográficos
Vários dicionários de referência registam porque como advérbio interrogativo: Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Dicionário da Porto Editora, Dicionário da Texto Editores, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa: “porque ocorre com valor circunstancial, expressando circunstância de causa, em frase interrogativa directa ou indirecta”.

Factos literários: abonações de grandes escritores portugueses
- Fernão Lopes, Crónica de D. João I: “Ó Deus, porque te prougue leixar um rei tão só e tão desemparado de tantos e bons como hei perdidos! (…) Ó Senhor, porque me leixaste vencer?”
- Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra: “Joaninha, Joaninha, porque tens tu os olhos verdes?”
- Eça de Queirós, Os Maias: “Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?”
“Porque vieste tão tarde?
- Bernardo Santareno, O Judeu, “Porque… porque somos tão desgraçados?!...”

Factos linguísticos
A palavra advérbio tem origem na forma latina adverbiu (junto ao verbo) e tem por função modificar um verbo, um adjectivo, outro advérbio ou uma frase, exprimindo diferentes valores: tempo, lugar, modo, causa, etc.
Em português, existem pronomes e advérbios que introduzem frases interrogativas, sendo que cada um exprime um valor semântico diferente:
- Quem (= «que pessoa») Quem chegou?
- Que (= «qual pessoa/coisa») Que compraste?
- Onde (= «em que lugar») Onde estiveste?
- Quando (= «em que altura») Quando chegaste?
- Como (= «de que modo») Como vieste?
- Porque e Porquê (= «por que motivo») Porque faltaste? / Faltaste porquê?

Se em perguntas que exprimem circunstância de causa optássemos pela expressão por que, estaríamos perante uma preposição + um pronome interrogativo, logo, substituível por outro pronome - qual, por exemplo. O resultado seria claramente agramatical: Por que chegaste atrasado? = * Por qual chegaste atrasado?

Por todos estes argumentos, parece-me legítimo o uso de porque enquanto advérbio interrogativo.

01 abril 2009

quem munge e quem muge?



Munge a vaca
ou muge a vaca?
Tira leite
E faz ruído?
Munge e muge é igual?
Não faz sentido!
O camponês é que ordenha;
A vaca faz o som dela.
Um munge,
Outro muge,
E "a vaca munge" está mal?
Como munge e muge é parecido,
A confusão é total!
Quem munge não muge
E quem muge não munge.
Então qual,
dos que mugem ou mungem,
É que é a vaca afinal?





19 março 2009

Que tal um banho no aquário e peixes na piscina?!





Um dos malabarismos da língua que mais me divertem é este:

piscina, que vem de peixe em latim (piscis), passou a significar tanque de água (onde não é suposto haver peixes), para nadar.

aquário, que significava, simplesmente, relativo à água, é que agora serve para lá colocar os peixes!...



Foto de Nuno Pavão

10 março 2009

palavras-crianças

De entre os processos de formação de palavras novas, a afixação será o mais produtivo e, também, o mais previsível. Aliás, é tão fácil criar palavras com base naquelas que já existem, juntando-lhes prefixos ou sufixos, que o fazemos diariamente, sem dar por isso, e ficaríamos surpreendidos com a quantidade de termos que, apesar de serem usados com frequência, nem sequer constam dos dicionários.
Experimentem, por exemplo, procurar no Priberam, que é bastante actual, as palavras sistematicidade (de sistemático + -idade), potenciador (de potencia(r) + dor) e intermutável (inter- + mutável)... Ou façam outra experiência interessante: procurem-nas no dicionário on-line da Porto Editora (onde não constam) e depois consultem a Infopédia, da mesma editora, que apresenta vários textos em que elas são utilizadas! Curioso, não?!
Estas jovens palavras, tão discretas na sua novidade, são facilmente interpretadas e podem ser usadas nos mais diversos contextos, mas ainda não fazem parte do léxico "oficial" apenas por causa da sua tenra idade... é uma questão de tempo! Deixemo-las saborear a liberdade de andarem por aí a brincar nas nossas cabeças, como crianças irreverentes. Porque é também nisso que reside a beleza das línguas vivas.

07 março 2009

Os habitantes de Torres... Novas, Vedras e outras!

Nem sempre é fácil saber qual é o nome gentílico, ou pátrio, referente aos habitantes de certas cidades e vilas. É o caso dos naturais de Torres, que podem ter diferentes designações. Assim, temos:

o torrejão, ou torrejano, habitante de Torres Novas
o torriense, ou torresão, habitante de Torres Vedras
o torrense, habitante de Torres, no Rio Grande do Sul, Brasil

Esta pluralidade de nomes tão parecidos causa, naturalmente, alguma confusão. E ontem, após a nossa comunicação na Expolíngua, fomos abordadas por uma estudante torriense, que nos questionou sobre a possibilidade de haver mais do que uma designação aplicável às pessoas naturais da sua terra. Respondemos que sim, mas a nossa resposta não foi suficientemente clara, por termos confundido, nós também, os diferentes adjectivos/nomes derivados do topónimo Torres, que se aplicam aos habitantes de cidades distintas que partilham esse nome.
Aqui fica, portanto, o nosso pedido de desculpas... e o esclarecimento que acima deixámos.

26 fevereiro 2009

Resserção, ressarço, ressarcimento... afinal, como é?!

O verbo ressarcir (que significa compensar, indemnizar) terá, ou não, um nome correspondente?

Que esse nome faz falta, não há dúvida. Em frases como aquela que vos forneci no desafio anterior, aparece pelo menos uma tentativa de aproximação, no sentido de referir o "acto ou efeito de ressarcir". Mas é usado o termo "resserção", que não só não existe em português, como não está bem formado, do ponto de vista morfológico, pois a vogal que se segue à consoante "s" deveria ser um "a", como acontece na forma de base, e não um "e".
Posto isto, e tendo em conta as sugestões de correcção dadas por alguns leitores nos comentários, temos as seguintes hipóteses: ressarço e ressarcimento. Ambas estão - aparentemente - bem formadas: ressarço é uma derivação regressiva, como empenho, de empenhar, uso, de usar, ou apelo, de apelar. Ressarcimento é derivada por sufixação, pois acrescentou-se o sufixo nominal "-mento" ao radical verbal "ressarc(i)". Mas será que existem nos dicionários de língua portuguesa?
Ressarcimento sim, é mesmo o que pretendemos: acto ou efeito de ressarcir, o mesmo que compensar ou indemnizar.
Ressarço, porém, não existe (enquanto nome)... e por que motivo? Tradicionalmente, a forma verbal "ressarço", da qual adviria o substantivo idêntico, não era considerada legítima. É que o verbo ressarcir tem sido considerado defectivo, só se podendo conjugar nos tempos e pessoas em que se mantém o "i" após o radical (ressarcimos, ressarci, ressarcíssemos...). Ora, esse i não está presente em "ressarço".
Contudo (e lá vem a controvérsia, a ambivalência, a confusão!), há dicionários e bases de dados que contemplam todas as flexões do verbo ressarcir, incluindo as tais "proibidas" - basta ir à Mordebe. Ao que parece, portanto, o nome "ressarço" tem já consagrada a flexão que lhe daria origem. Ainda assim, não o encontrei atestado enquanto substantivo. Será apenas uma questão de tempo?

17 fevereiro 2009

Nomes feios



Se o signo é arbitrário, como nos ensinou Saussure, não há razão para nos queixarmos dos nomes que as coisas têm.
E ninguém parece incomodar-se com o facto de não haver uma lógica, um resquício de analogia, entre os objectos e os seus significantes. Quem se importa que uma cadeira não se chame "assentadeira", que em vez de bola não se diga "pumba", que um livro não seja antes um "folhas-juntas"? Até porque sabemos que mesmo as onomatopeias, signos verbais supostamente motivados pelos sons que representam, podem ser completamente diferentes de idioma para idioma.
Então, porque é que há palavras bonitas e palavras feias?
Será porque as bonitas são parecidas com outras, de que gostamos pelas realidades (ou lembranças!) que evocam, ou simplesmente porque resultam de uma feliz - por vezes musical - combinação de fonemas? Talvez...
E, se reconhecemos que gostamos de certas palavras, porque nos soam bem, ou por razões mais sentimentais, alheias à razão, parece natural aceitar que existam palavras feias, desagradáveis, cacofónicas ou evocadoras de realidades grosseiras, desprezíveis.
Nesse sentido, pergunto: qual o motivo que terá levado alguém a escolher tais nomes para certas coisas?!