31 agosto 2007

Capaz

Capaz é um adjectivo que comporta, entre outros, o significado “que tem capacidade”. Os outros sentidos estão enumerados, por exemplo, neste dicionário virtual. No entanto, os dicionários não contemplam todas as possibilidades semânticas dos vocábulos, sobretudo no que toca aos vários registos de língua (popular, familiar, calão, gírias...) e às colocações, isto é, expressões em que as palavras se inserem e que têm um significado específico, diferente da simples associação dos sentidos de cada um dos termos que nelas se incluem. É o caso de “ser capaz de”, que pode significar (embora nem sempre signifique), na linguagem familiar, algo semelhante a talvez. Por exemplo, a frase “Ela é capaz de não ir” pode ser substituída, sem mudança de sentido, por “ela talvez não vá”.

Acontece que, quando a expressão “ser capaz de” é usada com esse sentido adverbial, existe alguma tendência para encarar a palavra capaz como se fosse invariável, ou seja, não a flexionando em número. Contudo, capaz continua a ser um adjectivo e, como tal, varia em número de acordo com o substantivo ou pronome que qualifica. Assim, seria incorrecto dizer “eles são capaz de não voltar antes de domingo”, pois há nessa frase um erro de concordância. Diga-se, antes, “eles são capazes de”...

24 agosto 2007

ANUNCIE SEM ACENTO!


A “nossa” Mafalda descobriu este erro ortográfico, que teve a amabilidade de nos enviar. É daqueles que passam despercebidos a muitos falantes, sobretudo àqueles que confessam ter muitas dúvidas sobre acentos gráficos.


Contudo, as regras de acentuação gráfica em português são poucas e quase todas lógicas e naturais. E para as compreender basta saber que os acentos (agudo e circunflexo) servem para indicar qual é a vogal tónica (a que se pronuncia com mais “força”), nos casos em que poderia haver dúvidas.


Em anuncie, é descabido colocar o acento agudo na vogal “u”, que NÃO é tónica nesta flexão do verbo anunciar. Em anúncio, sim, o “u” é a vogal tónica e a palavra leva acento gráfico por ser esdrúxula. Só assim não será pronunciada como anuncio, primeira pessoa do verbo anunciar no Presente do Indicativo!


Os amigos da Mafalda riram-se da sua mania de encontrar erros em todo o lado. Com efeito, a nós, que queremos bem à nossa língua, dizem-nos: “Lá estás tu!... que mal é que tem um acento a mais ou um acento a menos?...” Mas a todas as pessoas que escrevem, imprimem e afixam textos com erros ortográficos ninguém se lembra de dizer: “Lá estás tu! Então não consultaste primeiro o prontuário ortográfico?”

20 agosto 2007

Porque e por que



Antes de tentar lançar alguma luz sobre a diferença entre porque (junto) e por que (separado), é preciso dizer que NÃO existe consenso entre os especialistas em língua portuguesa e que Portugueses e Brasileiros aplicam critérios diferentes na utilização da palavra/locução.

No entanto, e apesar da polémica - que está longe de chegar a um termo (vejam por exemplo os comentários ao esclarecimento prestado na rubrica de Dúvidas Linguísticas do Público a partir daqui) - gostaríamos de avançar com a nossa humilde opinião.


A palavra porque – deve ser usada sempre que é pronome interrogativo (por exemplo em “Porque é que o João não foi?”) ou conjunção explicativa (por exemplo em “Não foi, porque estava de férias.”). No primeiro caso significa o mesmo que “por que motivo” e nunca é seguida de um nome (reparem que nunca perguntaríamos, pelo menos em português europeu, "Porque o João não foi?"). No segundo caso significa “uma vez que” e serve para ligar orações.


A locução por que – deve ser empregada quando podemos substituir a palavra que por qual. Por exemplo em “Por que (=qual) caminho foste?”. Pode usar-se tanto em frases interrogativas como em declarativas. Por exemplo em “Foi essa a razão por que (= pela qual) não falei”. Em ambos os casos, como é fácil verificar, a separação entre por e que justifica-se por se tratar de duas palavras com classes e funções gramaticais diferentes, sendo a primeira uma preposição e segunda um determinante ou um pronome, conforme o caso.

15 agosto 2007

Mais pequeno?!

Se há uma regra gramatical que nós, Portugueses, aprendemos desde cedo, é a da flexão irregular de certos adjectivos em grau. Todos sabemos que bom e mau, grande e pequeno, no grau comparativo e também no superlativo relativo, se transformam em melhor, pior, maior e... menor. E aprendemos tão bem a lição que, em adultos, não hesitamos em corrigir as crianças que caem na “asneira” de dizer “mais bom” ou “mais grande”.

Curioso é, porém, que haja entre os casos desta regra uma excepção que é paradoxalmente escandalosa e discreta, para quem fala a versão da língua usada deste lado do Oceano Atlântico. Eu explico; ou melhor, alguém me explica: por que motivo andamos todos a dizer e a escrever, alegremente, mais pequeno, quando nunca ousaríamos usar a expressão “mais grande” e talvez nem mesmo “menos pequeno”?! Como e quando é que o adjectivo pequeno, no grau comparativo de superioridade, passou a escapar à regra?

Uma pergunta que gostaria de fazer, se pudesse, a todos aqueles portugueses que já se permitiram pensar, num assomo de veleidade e arrogância, que no Brasil se fala “mal” a língua portuguesa. É que lá, meus caros, também é errado dizer “mais pequeno” em vez de menor!

07 agosto 2007

INTERREGNO


Desculpem a falta de artigos, mas temos duas boas razões.

A primeira é ser Agosto o nosso mês de férias. E por mais que queiramos deixar-vos aqui as nossas ideias, mesmo em tempo de lazer, falta-nos a ligação à Internet nas zonas de veraneio onde nos encontramos ;)

A segunda é que eu, S. Leite, acabo de ser mãe pela segunda vez e por isso tenho dificuldade, neste momento, em pensar noutras coisas além de fraldas, amamentação e, é claro, dar carinho ao meu pequeno príncipe.

Contamos, portanto, com a vossa compreensão. E esperamos que não deixem de nos visitar por causa deste interregno!

01 agosto 2007

PERFORMANCE

O que é? Quase toda a gente sabe.

De onde vem? Da língua inglesa, como tantas outras palavras que usamos diariamente.

Será um estrangeirismo ou um barbarismo? Depende do ponto de vista… para os utilizadores mais liberais da nossa língua, é um estrangeirismo perfeitamente aceitável, porque o seu significado não encontrava um equivalente adequado em português. Para os puristas, é um barbarismo, ou seja, um vocábulo “intruso” que não tem qualquer razão de ser, pois existem na nossa língua pelo menos vinte e um termos que o podem substituir (vejam a lista no Ciberdúvidas!).

Para onde vai? Para os dicionários de língua portuguesa, em breve, se continuar a ter a preferência dos falantes. Por mais alto que fale a voz dos defensores da vernaculidade do português, não serão eles quem decidirá se o termo vinga ou não – mas sim o uso que este tiver. E tem tido MUITO uso! A verdade é que a maior parte das pessoas que opta por dizer performance em detrimento de desempenho, fá-lo porque a palavra portuguesa não parece abranger a ideia claramente positiva de “eficácia”, de “sucesso”, que performance transmite.

Performance já anda na boca de toda a gente, quer conste dos dicionários, quer não. E assim se enriquece ou se empobrece a nossa língua?